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Terça-feira, Agosto 17, 2010

Moradores de rua do Uruguai combatem exclusão com cultura

Pintura, cinema e debates sobre temas atuais são os eixos do primeiro centro cultural para moradores de rua do Uruguai, no qual essas pessoas buscam sua reinserção na sociedade por meio do pincel, das palavras e, sobretudo, da esperança.

Situado em um velho casarão remodelado e pintado, o centro cultural permite que as pessoas sem lar da capital uruguaia estabeleçam uma "interação social entre pessoas e com pessoas" para tentar reverter "seu processo de exclusão social", disse o coordenador do centro, Alfredo Correa.

O lugar, "um espaço pensado para a reprodução e consumo de bens culturais por parte de uma população afastada", recebe assiduamente cerca de 60 pessoas desde sua abertura, há pouco mais de um mês, para participar de atividades afastadas da vida nas ruas da cidade.

Da mesma forma que qualquer outro centro cultural, esse também teve problemas para colocar-se em andamento, como a falta de orçamento, mas nenhum originado pelos moradores de rua, que só querem "mais atenção e estar mais abertos ao encontro".

"Geralmente, a atenção a esta parte da população era vinculada ao mais material, à satisfação de suas necessidades mais existenciais, ou seja, comida e teto. Esta é outra proposta para nos aproximarmos, nos conhecermos e revertermos a exclusão", disse Correa.

O local se afasta da imagem do clássico centro de assistência e insiste na reconstrução através da cultura "das redes sociais e afetivas" destruída pela indigência.

A equipe do centro é formada por cinco pessoas, entre educadores e psicólogos, sem contar os responsáveis pelas diferentes oficinas que são realizadas no local.

A iniciativa, financiada pelo Ministério de Desenvolvimento Social uruguaio, foi considerada positiva pelos usuários. Um morador de rua que preferiu não se identificar disse que as atividades propostas no velho casarão o permitem "pensar em outras coisas" além da sobrevivência diária, algo "digno" e pelo qual é "agradecido".

Enquanto leem jornais ou veem um filme, os moradores de rua que frenquentam o centro falam de futuras atividades e de planos para expor suas criações.

Outros presentes aproveitam as instalações para retomar paixões que tinham antes de viver nas ruas, como a pintura e a escritura.

Uma das propostas mais interessantes é o "Café Notícias", onde são lidos os jornais da manhã e em seguida são propostas discussões sobre como a política uruguaia afeta sua vida cotidiana.

"Depois eles veem filmes, leem livros ou escutam música, porque, como centro cultural, este é um espaço para aproveitar", disse Correa.

Os visitantes do centro são obrigados a desenvolver alguma atividade e as normas proíbem a permanência no local daqueles que apresentarem sintomas de intoxicação por álcool ou drogas, ou os que buscam apenas um lugar para dormir.

"Essa foi a grande novidade. Eles mesmos se afastam se descumprirem as normas", afirmou o coordenador. Segundo Correa, o projeto permite aos indigentes recuperar "um espaço social que tinha sido destruído".

"Eles agradecem permanentemente. Serem tratados como pessoas é uma das necessidades básicas que começam a ver resolvidas por aqui, porque o problema não são eles, mas sua localização social em um "não lugar", onde nem sequer são considerados", concluiu.

Segundo os últimos dados do Instituto Nacional de Estatística do Uruguai, apenas 1,6% da população do país vivia nas ruas em 2009 e a pobreza atingia 20,9% dos uruguaios naquele ano.


Fonte: Portal Terra

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