Segunda-feira, Novembro 23, 2009

Dona da própria vida

Em 1995, ela tinha 50 anos. Trabalhava como doméstica em um apartamento no Leblon. Em um dia triste, estava em uma praça e a operação cata-tralha a levou para a Fazenda Modelo. Demorou a conseguir sair de lá. Quando chegou novamente para trabalhar foi demitida por ter se ausentado tanto tempo. Sofrimento. Foi para as ruas.

2009, quatorze anos depois. A equipe de abordagem de rua da zona sul a encontra em uma praça no mesmo Leblon. Uma, duas, três, várias vezes. Educadores e assistentes sociais conversam e tentam saber como essa senhora, agora com 64 anos, planeja sair da rua. Dona de si, ela diz que espera conseguir sua aposentadoria para ter sua própria casa.

Quando falamos em abrigo, ela se lembra do episódio que a levou para a Fazenda Modelo e resiste a sair dali. Diz que pode resolver sua vida sozinha, mas mal consegue andar. Diz também que não vai conosco, mas se a obrigarmos, ela não resistiria. Parecia um pedido de socorro que tentava assegurar a dignidade de quem é dona de sua vida.

Dissemos para ela que precisaria ir conosco. Ela arruma suas coisas, se levanta e com muita dificuldade anda 5 passos até a kombi. Quando senta ali reconhece que não conseguiria chegar sozinha até o INSS. Parece feliz durante o trajeto até o abrigo. Conversa muito, fala sobre os namoros e as brigas na praça e sobre o sonho de ter sua própria casa. Depois de um banho demorado no abrigo, nos despedimos. Voltaremos para a acompanharmos neste sonho de conseguir sua própria casa.

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