Segunda-feira, Outubro 26, 2009

Saudosa Maloca

de Carlos Augusto de Araujo Jorge.

Em baixo de um viaduto, no bairro imperial de São Cristovão, e em frente à imponente Quinta da Boa Vista, lá está um grupo de umas vinte pessoas, homens e mulheres, tidas e havidas como pessoas agressivas e inabordáveis.

No outro oposto do mesmo viaduto está instalado um abrigo, outrora albergue, cujo nome homenageia um dos “perdidos numa noite suja” o nosso Plínio Marcos, aí com pessoas dóceis, tranqüilas alguns deles com “transtornos mentais’ como alguns denominam.

O que me leva a essa comparação? O rebelde, inacessível, inabordável e o pacato, obediente às regras instituídas?

Em uma visita aos dois espaços para estudar a viabilidade de apresentarmos uma proposta de Humanização da parte do viaduto onde se instalou o primeiro grupo, por orientação do Secretário Municipal de Assistência Social, pude constatar que o que faz do outro o seu modo de ser, muita das vezes, é o que eu espero que ele seja. Isto é, nós construímos as imagens que desejamos e a elas emprestamos as ações, Imagem em ação talvez Imaginação.

No “abrigo” estavam pessoas, umas sentadas, outras em fila indiana, à espera do almoço. Outros visitavam páginas de velhas revistas, uns com camisas outros sem.

Todos, adaptados àquele espaço e às suas normas.

No outro espaço, alguns passeavam de um lado para outro, outros deitados dormiam ou procuravam fazê-lo, pedras serviam de travesseiros. Pouca ou quase nenhuma higiene.

Lá na ponta do viaduto uma pequena fogueira, onde segundo alguns, servia para derreter cobre e que eles fizeram questão de ressalvar: “não são fios roubados”.

Eram homens e mulheres, essas em número bem menor, que se apropriavam desse espaço e que a turma do outro lado e os profissionais que trabalham com essa população chama de “Maloca”.

Os dos abrigos acatam as normas e quando por qualquer motivo as transgridem perdem o seu lugar de ficar.

Na “maloca”, também tem regras. Lá não entra bandido, nem ladrão, nos afirmam as lideranças que se dispuseram a conversar conosco. De certo, dão “sua trepadinha” e fumam seu ‘baseado’, mas não há bagunça.

Os dois espaços têm normas e permitem convivência. Por que o “abrigo” é visto como tranquilo e a maloca perigosa? Se ali estivemos e fomos igualmente bem recebidos? Demoramos mais na maloca onde as pessoas, muitas delas foram até despertadas na hora, conversamos com urbanidade e maturidade. Fomos francos e recebemos atenção. Amistosos e fomos considerados. Curiosos e respostados.

Continuo a me perguntar: onde está a agressividade da “turma da maloca”? Onde está a hostilidade? Penso que dentre nós!

O nosso Secretário resolveu ressignificar aquele espaço. Humanizá-lo e a turma gostou. Entenderam o que é administrar no coletivo, pois isso sempre o fizeram!

Dentre em breve, teremos a “Saudosa Maloca”, uma justa homenagem a um grupo de sambistas que à margem do berço do samba, São Paulo, fizeram coisas belíssimas.

Rio de Janeiro 17 de outubro de 2009.


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