Moradores de rua: O desafio de viver sem rumo
Eles passam de mil em Campinas e carregam o estigma de pessoas incômodas
Quando as portas do comércio são fechadas, na área em frente e ao redor da catedral, a casa deles está liberada para o pernoite. O ponto é o mais disputado, porque oferece a segurança da base da PM, na esquina da 13 de Maio, o centro comercial de Campinas, com a Francisco Glicério, avenida-símbolo da pujança financeira da cidade. É ali que os moradores de rua sentem-se protegidos dos perigos da noite. Mas a presença deles, aos olhos da população e do poder público, é um incômodo. São invisíveis para todos os efeitos, mas ainda assim carregam o estigma de pessoas incômodas.
Seja no descampado da praça ou abrigados feito bicho sob um viaduto, eles são uma estatística que causa desconforto. Em Campinas, os moradores de rua somavam 1.043 no final de 2007, segundo um levantamento do Ministério do Desenvolvimento Social. O número é pequeno, se comparado à população que já ultrapassou a casa de 1 milhão de habitantes. São poucos, mas tocam na ferida da cidade, de qualquer cidade. É um cartão-postal às avessas, que ninguém quer. Eles próprios não querem, mas na maioria das vezes não há escapatória.
Cansado de tudo
“Eu to cansado de tudo. A coisa que eu mais queria é ir para casa”, desabafa Pedro José da Cruz, de 47 anos, com a saúde debilitada pelos três anos de rua. Saiu de Catanduva atrás de um “rabo de saia”, adjetivo que usa para amenizar a dor de um amor de longa data, de 15 anos. Não encontrou a mulher de sua vida. A paixão se transformou em desespero, a ponto de pensar em fim à própria vida.
O drama de Pedro, de se ver vagando pelas ruas de uma cidade grande, é o mesmo de outros personagens do mesmo cenário. Apenas os enredos são diferentes. Para eles, conviver com este desconforto e a indiferença é o de menos. O difícil é driblar a solidão e a saudade, que a cidade abarrotada de gente não consegue preencher.
A felicidade
“A felicidade pra mim é ter uma casa pra morar e um serviço para trabalhar”, diz Elizeu Pereira de Oliveira, 36 anos, que deixou sua cidade, Campo Largo-PR, depois de uma traição da mulher. Já são dois anos longe dos três filhos, o mais velho com 15 anos hoje. Na rua, conheceu Eliane Martins Siqueira, 37 anos, que deixou seus seis filhos para trás. Juntos formam um casal, mas não uma nova família.
Família tem casa. E os moradores de rua têm consciência que, dormindo na calçada, morando na praça e se abrigando da chuva sob uma marquise de loja em plena madrugada, fica difícil falar em família. “A gente dá um sorriso, uma risada, porque a gente gosta de ser alegre. Mas a situação é dura”, ensina Sebastião de Moura, 45 anos, pai de duas filhas e que deixou Bauru há dois anos.
Para os moradores de rua, dar um sorriso é, muitas vezes, um sacrifício. Simplesmente porque não há motivo para isso. Um casal que pediu para não ser identificado armou sua “casa” sob uma das rampas para pedestres do viaduto Miguel Vicente Cury, ao lado do terminal central, e qualquer tentativa de sorrir é ofuscada pela precariedade da situação. A moradia, cercada de caixas de madeiras utilizadas para embalar frutas, lembra uma toca.
“Aprendizado. É a única coisa que sobra se você sobreviver”, diz o morador, feliz com a possibilidade de sair das ruas em alguns dias e voltar para Minas Gerais com a mulher. O casal, com boa formação cultural e profissional – ela inclusive com curso de secretária bilíngüe -, é uma exceção entre os que moram nas ruas.
Cidadania
A maioria deixou para trás também os estudos, perderam os documentos, a própria identidade. A escola da vida é a rua. E um dos poucos momentos longe dela é na Casa da Cidadania, todos os dias, às 20h, para o sopão, uma roupa nova e até um banho. O local, sob o viaduto Cury, é mantido em parceria com a prefeitura e voluntários. Maria do Carmo, uma contadora que descobriu há 12 anos a importância de servir aos excluídos, preside a Casa com uma dedicação que impressiona.
“Não admito que trate mal o morador de rua. Fico sempre do lado deles, mesmo estando errados”, afirma Maria do Carmo. Ela cumprimenta um a um à entrada do restaurante, que recebe cerca de 200 pessoas por noite, com quase 400 refeições. Trata muitos pelo nome. Tem seus preferidos, geralmente os mais excluídos entre os excluídos.
Um deles é o “São Benedito”, ou Jadson Silva dos Santos. Ele sequer sabe ao certo o porquê de estar nas ruas, nem a quanto tempo. Tem 46 anos, mas aparenta menos, ao contrário da maioria os seus colegas submetidos aos maus-tratos típicos da vida de rua.
Sem vaidade
A falta de banho, de higiene pessoal, o consumo exagerado de álcool e a tristeza estampada no rosto fazem dos moradores de rua pessoas mais velhas do que realmente são. As idades não condizem com a aparência. A falta de dentes, ou a situação precária deles, ajuda a completar o visual esquecido. Para quem está há muito tempo vagando pelas ruas da metrópole, então, as marcas da vida acelerada são ainda mais evidentes.
Que o diga Antonio Rodrigues Groff. Tem 56 anos, 30 deles vivendo nas ruas. Aparenta ter pelo menos dez anos a mais. “Já tentei voltar três vezes para casa, mas não consigo”. O ex-mecânico de manutenção é de Itu e tem um histórico de vida cheio de desentendimentos familiares. Outra coisa em comum entre os moradores de rua é a profissão improvisada pela sobrevivência, de catador de papelão e outros recicláveis. Os cerca de R$ 10 que ganham por dia são para a bebida e alguma coisa para comer.
Mulher misteriosa
A população de rua é predominantemente masculina. Mulheres são poucas, e mais arredias. Uma delas está intrigando a polícia, os voluntários e os próprios moradores de rua. Apareceu há cerca de três meses e dorme toda noite aos pés da estátua de d. João Nery, em frente à catedral. De vestido preto, aparência saudável e uma bolsa grande de viagem, ela se fechou para o mundo. Ninguém consegue obter qualquer tipo de informação. Par um pedido de entrevista, é enfática: “Sai”.
A poucos metros dela, encolhida dentro de uma caixa de papelão, outra mulher tenta ficar mais quieta que o silêncio da noite. Tenta conter as lágrimas. Aparência frágil, olha para o nada e se esforça para falar, num fio de voz: “Não me leve a mal. Outro dia falo com você”.
De passagem
Eles compoem um cartão postal que nenhum município quer ostentar. O poder público acredita, embasado nos prontuários de atendimentos, que os moradores de rua estão só de passagem. A secretária de Cidadania, Assistência e Inclusão Social de Campinas, Darci da Silva, diz que a prefeitura trabalha “na lógica do recebimento, com bom-senso”. A orientação é fazer o contato com a cidade de onde vieram. “Ele tem o direito de ser acolhido lá”, diz Darci.
A secretária afirma que os “trecheiros” muitas vezes são encaminhados de outros municípios, que não admitem ter morador de rua. Darci diz que a fiscalização contra essa prática está mais severa em Campinas. “Não queremos dar o passe e mandá-lo embora, mas também não queremos uma invasão de moradores de rua.
O trabalho de recâmbio da prefeitura com os moradores de rua tenta se encaixar no novo padrão de assistência social, que desde 2004 passou a ser tratada como política nacional, de dever do Estado e direito do cidadão. O assistencialismo ficou no passado, assim como a economia de fronteiras do mundo capitalista.
Campinas é o carro-chefe de uma região metropolitana que responde por 6% do PIB (Produto Interno Bruto) do Estado de São Paulo. Mas para quem anda pela cidade, principalmente à noite, e se depara com o número espantoso de moradores de rua, o novo formato de ação social não tem surgido o efeito esperado.
Como ajudar
Informações gerais sobre moradores de rua
- Sares (documentação, localização de família, orientação para saúde): Rua Regente Feijó, 824, Centro.
- Samu: 192
- Guarda Municipal: 1532
- Bombeiros: 1983
Abrigo
- Samim: Rua Francisco Elizário, 240, Bonfim
Doações de roupas, voluntários para o sopão
- Casa da Cidadania: Som o viaduto Miguel Vicente Cury, ao lado do terminal Central
Fonte: EPTV.com


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