terça-feira, dezembro 16, 2014

Perspectiva 2

Quando você vê uma criança usando crack na rua, o que mais chama sua atenção? A criança, o crack ou a rua?

Quando você vê um homem adulto morando nas ruas, como você o enxerga? Um pobre coitado, um vagabundo ou um homem criado à imagem e semelhança de Deus, como todos nós?

Quando você pensa sobre o que precisa acontecer para uma pessoa sair da rua, você logo imagina o que o próprio morador de rua precisa fazer, o que você mesmo pode fazer para ajudar, o que o governo deve fazer, ou nunca pensou no assunto?

Conheço um homem com mais de 50 anos que foi morar nas ruas ainda criança. Bebe muito. Daqueles que não acreditamos que um dia sairá da rua. Um dia um pastor conseguiu indicá-lo para receber um barraco em uma comunidade que se formava em Nova Iguaçu. Ele foi morar lá com sua companheira, também há mais de uma década morando nas ruas. Mas era em Campo Grande que ele conseguia o seu sustento, então ia para lá tentar conseguir algum dinheiro. Mas ia andando! 7 a 9 horas de caminhada! Claro que não dava para ir e voltar todo dia. Ia, conseguia algum dinheiro, dormia uma ou duas noites nas ruas de Campo Grande e voltava para casa, onde ficava até o dinheiro e a comida acabar e então enfrentava mais algumas horas de caminhada.

Você deve estar se perguntando. Por que não pegava um ônibus? Como você se sentiria se um morador de rua entrasse no mesmo ônibus que você? Incomodado(a), talvez. Quando não se consegue tomar banho todo dia, o suor realmente incomoda. Como você imagina que se sentia nosso amigo quando entrava em um ônibus, depois de dias ou décadas na rua? Ele não queria ser motivo de incômodo para ninguém. E de tanto se sentir mal dentro dos ônibus, aquele lugar se tornou hostil para ele. Caminhava, então.

Um dia, em Campo Grande, ganhou um colchão de casal usado e levou para Nova Iguaçu. Andando! E na cabeça!!!
Com que direito podemos pensar que uma pessoa que se esforça tanto não queira sair da rua? Eu prefiro pensar no que preciso fazer para que outras pessoas melhorem suas vidas?

Especialmente eu, que posso agradecer a Deus, que por sua graça me garantiu um lugar no céu, porque nada que eu faça seria merecedor de tamanha salvação.

Efésios 2:8-10 NTLH
Pois pela graça de Deus vocês são salvos por meio da fé. Isso não vem de vocês, mas é um presente dado por Deus. A salvação não é o resultado dos esforços de vocês; portanto, ninguém pode se orgulhar de tê-la. Pois foi Deus quem nos fez o que somos agora; em nossa união com Cristo Jesus, ele nos criou para que fizéssemos as boas obras que ele já havia preparado para nós.

segunda-feira, dezembro 08, 2014

Perspectiva

Ele era o cara na rua. Falava bem. Justo. Não arrumava confusão. Ninguém também arrumava encrenca com ele. Amigo de todo mundo. Todo mundo queria estar por perto. Mas não dava liberdade para ser o melhor amigo de ninguém. Dono de si, parecia não depender de outras pessoas. Sairia da rua quando conseguisse parar de beber, coisa que dizia que só não fazia porque não tinha nada melhor em vista.

Influenciado por um amigo. Daqueles da pá virada, daqueles que ninguém acredita. Mas que estava deixando as drogas e parando de brigar depois que foi para a Casa de Lázaro, pediu uma vaga.

Chegou no albergue, mas as coisas não mudaram muito. Continuava sem documentos, com poucos biscates e ainda muita bebida. Até que um dia foi pego junto com outros companheiros com drogas dentro do albergue. Descoberto, foi o primeiro a admitir e a pegar suas coisas e sair sem contestação. Justiça, sabia ele. Foi para uma maloca e ficou seis meses praticamente sem sair do lugar, só bebendo e usando drogas levadas por seus companheiros. Às vezes pensava em levantar para comer no restaurante popular. Mas logo um companheiro o desestimulava. E, sem perspectiva, lá ia mais um gole.

Um dia conseguiu. Percebeu que outras pessoas que haviam também deixado a Casa de Lázaro tiveram a oportunidade de retornar. Percebeu que era possível. Assim, reuniu forças e caminhou até a Casa de Lázaro para pedir para voltar. Ficou, conseguiu emprego e segue sua caminhada para deixar uma vida de desesperança. O que fez diferença? 1) Percebeu que era possível. 2) Tinha um lugar para onde caminhar.

Precisamos caminhar esse mesmo caminho para encontrar essas pessoas e anima-las a seguir adiante e não olhar pra trás.

Vamos?

terça-feira, outubro 29, 2013

Cabelos brancos

"Por que ele fez isso comigo, Marcelo?" Ela perguntou com aquela firme certeza de que eu poderia dar uma resposta e como quem diz: "é muita brutalidade, não é humano, tem que ter uma explicação!"
Do alto de seus cabelos brancos e décadas de vivência nas ruas, ela ainda mantinha a sanidade de não aceitar e não entender porque não a deixavam simplesmente andar pela rodoviária. - "Aqui você não pode ficar! Não pode, não pode, se não sair logo vou te [agredir]" esbravejava o segurança. Ela preferiu usar o termo agredir para não repetir o baixo nível do seu interlocutor. "Por que ele fez isso comigo, Marcelo?" Eu não tinha a resposta.

Ontem tornou-se público o pronunciamento de um vereador de Piraí, interior do Rio de Janeiro, dizendo que moradores de rua deveriam virar ração para peixe.

Costumavam me perguntar como conseguia trabalhar com pessoas em situação de rua. Eu sempre respondia que a dificuldade não era com quem vivia nas ruas, mas nos palácios. Até que ouvi um pastor, Carlos Queiroz, dizendo que esse povo do palácio existe para exercitarmos nossa misericórdia. E me dei conta de que não podia ter paciência apenas com um grupo de pessoas e intolerância com o outro. Percebi que quem vive nos palácios também precisa de misericórdia.

Veja essa história do vereador de Piraí. Um discurso iracundo e gratuito contra quem mora na rua. Com a repercussão, ele pede desculpas e diz ter sido tomado pela emoção do assassinato, 17 anos atrás, de seu irmão por um morador de rua. É ou não é alguém que precisa de misericórdia?

Tomara que esse lamentável episódio sirva para que ele resolva sua mágoa e que passe a ter a sanidade e o respeito pela vida da moradora de rua de cabelos brancos.



sexta-feira, setembro 06, 2013

Moradores de rua de BH fazem releitura tridimensional do quadro Guernica

Trabalho promove uma reflexão sobre a importância da cultura de paz diante dos horrores da guerra e da violência

Está em exposição no Centro de Referência Especializado para Pessoas em Situação de Rua, Centro POP, um releitura da tela Guernica de Picasso, 1937, desenvolvida por moradores em situação de rua. A obra fica em exibição no local até sábado, dia 7 de setembro, das 14h às 16h30. A visitação é Catraca Livre.

Releitura fica em exibição até sábado, dia 7 de setembro

A tela original reflete o horror da guerra e joga uma luz sobre a tendência do ser humano à crueldade. “Guernica – O clamor das ruas” é resultado de uma oficina iniciada em março do ano passado e possibilitou aos participantes uma atividade sócio-cultural e artística, além de uma reflexão sobre a importância da cultura de paz diante dos horrores da guerra e da violência, descritos na obra de Picasso.

A releitura tridimensional foi desenvolvida pelos artistas plásticos Cristiano Coelho, Raquel Ribeiro, pelo arte-educador Júlio César Alexandre, coordenados pelo Projeto Guernica, um programa da Secretaria Municipal Adjunta de Direitos de Cidadania, que envolve jovens em atividades culturais artísticas e sociais.

SERVIÇO

O QUE
“Guernica - O clamor das ruas”

QUANDO:
diariamente de 5 (Qui) a 07/09 (Sáb)
das 14:00 às 16:30

QUANTO
Catraca Livre

ONDE
Centro POP - BH
Avenida do Contorno, 10852
Barro Preto - Centro
Belo Horizonte

Fonte: Catraca Livre
http://catracalivre.com.br/bh/agenda/gratis/moradores-em-situacao-de-rua-fazem-releitura-tridimensional-do-quadro-guernica/

segunda-feira, fevereiro 25, 2013

Não luto mais contra o recolhimento compulsório

Pronto. Decidi. Não luto mais contra o recolhimento compulsório. Podem me xingar, jogar pedra, o que seja. Não falo mais sobre esse assunto. Aliás, tenho me perguntado: porque é que ainda se fala tanto sobre isso na cidade? Sempre que se debate esse assunto, independentemente da opinião do debatedor, duas coisas ainda que não ditas, ou mesmo se contestadas, ficam no ar como verdades: 1) existem lugares para onde levar as pessoas e 2) quem está na rua não deseja sair dali.

Sim, porque só faz sentido recolher ou internar alguém a força se existe algum lugar apropriado para essas pessoas serem internadas ou recolhidas. E ainda, só faz sentido levar alguém a força para estes lugares, se a pessoa não quiser ir espontaneamente. Então qualquer debate sobre recolhimento compulsório reforça a idéia de que essas duas premissas são verdadeiras.

Acontece que não são. Não existem lugares para se levar as pessoas que estão nas ruas. Nem é verdade que elas não querem sair da rua.

O debate sobre recolhimento compulsório é um debate falso, que não existe, um não-debate, fundado em premissas falsas e que portanto funciona apenas como uma cortina de fumaça para encobrir os verdadeiros interesses dos promotores dessa questão.

Vejamos. O último levantamento da Prefeitura do Rio identificou no segundo semestre de 2012, aproximadamente sete mil pessoas em situação de rua na cidade. Em 2008, o Ministério do Desenvolvimento Social contou 4500 pessoas, um aumento de 60% em quatro anos. Só existem cerca de mil vagas em abrigo para adultos na cidade do Rio. Quase diariamente atendo pessoas pedindo abrigo e em muitos casos, muitos mesmo, sou obrigado a dizer que não existem vagas. Ora, se não existem vagas para as pessoas que voluntariamente decidem ir para um abrigo, porque é que estamos falando em levar alguém a força para um abrigo. É comum, muito comum, que as pessoas sejam levadas pela Prefeitura para abrigos, especialmente em Paciência (o maior de todos), e sejam impedidas de entrar por falta de vagas. Ou seja, as pessoas são tiradas das ruas do centro e zona sul da cidade e transferidas para as ruas da zona oeste. Nos últimos quatro anos foram realizados mais de 20 mil abrigamentos a cada ano. Em média cada morador de rua já foi levado mais de dez vezes para abrigos públicos. E a população de rua da cidade só faz aumentar.

Aí vão dizer que são as pessoas que moram nas ruas que não querem sair da rua. Mas isso também não é verdade. Ninguém mora na rua porque gosta. Você pode imaginar que alguém vivia em paz em sua casa, com uma família feliz e emprego estável e tenha decidido, ao acordar pela manhã, morar na rua ao invés de ir trabalhar ou passear na praia? Claro que não. Todas as pessoas que moram nas ruas chegaram ali em razão de um ou vários problemas. Ninguém escolheu ir para a rua do nada. O processo de saída da rua passa pela solução de cada um desses problemas. Por isso não adianta levar essas pessoas dez vezes para o mesmo lugar sem que se encaminhe a solução dos problemas de cada um. Não se trata de convencimento. Se a pessoa não queria ir para a rua ela não precisa ser convencida a sair da rua. Ela precisa ter perspectiva de que sua vida pode ser melhor.

Eu não ganho um milhão de reais por mês como o Ronaldinho Gaúcho. Mas ia ficar feliz se recebesse um aumento assim. Quase todo mundo se pudesse ganhar um milhão de reais honestamente não ia rejeitar a oportunidade. Mesmo querendo ficar rico eu não faço nada para tentar ficar rico. E acredito que isso seja verdade para a maioria das pessoas. Ora, se quero ficar rico, por que não faço nada para que isso aconteça? Porque não tenho perspectiva de que isso possa ser uma realidade um dia. Não se trata de me convencer a querer ficar rico. Para que eu faça alguma coisa para isso acontecer, eu preciso acreditar que isso seja possível, ter pelo menos um vislumbre de que isso é possível.

O mesmo ocorre com quem mora na rua. Não é preciso convencê-lo a sair da rua, como se ele quisesse ou gostasse de morar ali. É preciso criar condições para que ele perceba que sair da rua é possível. Mas, como uma pessoa que mora na rua pode pensar que vai viver em uma casa de novo, ter uma família e emprego estável, se tudo o que recebe ao longo do dia é a indiferença, o medo e a repulsa? Como acreditar que pode voltar a trabalhar se quando ainda tinha casa perdeu o trabalho? Como voltar a ter uma família, se perdeu tantos amigos? E se o que levou para a rua foi fruto de algo que tenha feito de errado, como se perdoar se ninguém ao menos lhe estende a mão? Mais do que um abrigo, quem mora na rua precisa acreditar que é possível ter amigos de novo, ter um novo trabalho. Para isso é preciso criar condições para que vínculos afetivos sejam criados e fortalecidos. É preciso acesso facilitado ao trabalho.

Por isso, a política de assistência social, ratificada pela Lei Federal 12.435/11, prevê a implantação de centros de convivência para pessoas em situação de rua e abrigos com no máximo 50 pessoas. Isso garante o atendimento individualizado que essas pessoas precisam.

O Rio ainda não tem esses centros de convivência e os abrigos pequenos. Talvez, seja isso que a fumaça do recolhimento compulsório queira esconder.

Eu não luto mais contra o recolhimento compulsório. Mas sigo firme na luta em favor de que sejam garantidas condições para que a cidade do Rio de Janeiro seja verdadeiramente acolhedora para todos.

segunda-feira, fevereiro 18, 2013

Olho por olho, dente por dente. Ou Deus, tem misericórdia de mim, que sou pecador.

Olho por olho, dente por dente. Ou Deus, tem misericórdia de mim, que sou pecador.

Hoje à tarde passava pela rua Manaí, em Campo Grande, RJ (ao lado do Centro Universitário Moacyr Bastos). Nesta esquina há alguns meses começou ali a se concentrar pessoas em situação de rua. O número de pessoas só fazia aumentar, a ponto de montarem cabanas para terem um pouco de privacidade. Até que hoje um carro parou e jogou um coquetel molotov. Em pouco tempo, tudo foi queimado. Só haviam duas pessoas dormindo no local no momento em que começou o fogo. Em seguida, um outro carro passou e uma senhora avisou aos que estavam dormindo que o fogo se iniciara. Ninguém se machucou. Mas o semblante triste daqueles que não têm casa e que perderam até a cobertura de papelão ainda não me deixou dormir.

Dormiam nesta esquina cerca de 30 jovens. Quase todos usuários de drogas. Antes de chegarem ali, ficavam ao lado do Restaurante Popular, a uns 700 metros de distância. Foram expulsos de lá a mão armada por supostos milicianos. E antes de chegarem em Campo Grande estavam nas ruas do centro e zona sul da cidade. Foram recolhidos e levados para um abrigo, apelidado de Disneylândia do crack, por um ex-abrigado. Marginais. Cada vez mais à margem de tudo e de todos. Mas, ainda assim, são colocados ainda mais à margem, seja pelo fogo, compulsoriamente ou "fuzilados", como comentou um bombeiro que trabalhava no combate às chamas.

O que queremos de nossa cidade? Pessoas cada vez mais à margem? Mais marginais? Ou queremos mais vida?

Queremos ver jovens destruídos pela indiferença e pelas drogas? Ou queremos jovens fortes e com saúde?

É verdade. Alguns ali faziam roubos para sustentarem o vício. É verdade. Alguns ali alugavam as cabanas para a prostituição. É verdade. Ali não era um lugar digno para ninguém morar. É verdade, ali eles não deveriam ficar. Mas outra questão se impõe? Sair dali pra onde? Para mais 700 metros adiante? Para a frente de uma igreja? Para uma disneylândia do crack? Para a Av. Brasil?

Poucas foram as vezes em que conversei com um deles e não recebi um pedido de ajuda para sair dali. Alguns saíram. Mas quais opções dispomos? Onde estão os pequenos abrigos em toda a cidade, os centros de convivência, os consultórios de rua, os CAPS-AD, o acesso facilitado ao emprego e a programas habitacionais? Ninguém mora na rua porque gosta.

Ou agimos segundo a Lei de Talião (olho por olho, dente por dente) e marginalizamos mais os marginalizados ou fazemos como o publicano, admitindo nossos pecados e fazendo o que precisa ser feito.

Deus, tem misericórdia de mim, que sou pecador.

segunda-feira, dezembro 03, 2012

Respeite a fila!

Preciso fazer uma confissão para contar esta história. Estava eu dirigindo para o Centro pela av. Brasil, seis e pouca da manhã. Um engarrafamento monstro na altura da Vila Militar. Cortei pela direita e segui pelo acostamento tentando chegar um pouco mais rápido ao meu destino. Mais a frente avisto um andarilho vindo no sentido oposto. Reduzi e abri espaço para que ele passasse. Ao cruzar por mim ele, indignado, me exortou: - "Respeite a fila!"

Ele estava certo. Eu estava desrespeitando a fila e isso, mais do que uma infração de trânsito, é um desrespeito contra as outras pessoas que aguardavam honestamente sua vez na fila-engarrafamento.

Esse é só mais um exemplo provando que quem mora na rua não é desprovido de valores como justiça, honestidade, verdade, respeito...

Conheço uma pessoa que foi morar na rua depois que sua mãe faleceu. Nenhum dos seus familiares o acolheu depois disso. Essa pessoa sofre de um transtorno psiquiátrico. Ele não consegue conviver com ninguém porque se irrita muito sempre que vê alguma injustiça. Quer bater em todo mundo. Sua mãe era a única que o compreendia e tinha a paciência necessária para acalmá-lo toda vez que ele percebia alguma injustiça.

Agora veja você que mundo louco. Um dos comportamentos que pode indicar um transtorno psiquiátrico é a incapacidade de uma pessoa em aceitar injustiças. Não deveria ser o contrário?

Enfim, mesmo que possa parecer loucura, respeite a fila.