Segunda-feira, Novembro 23, 2009
Dona da própria vida
Domingo, Novembro 01, 2009
Topografia de um desnudo
"Uma história real, um desafio que não quer calar"
ProfªSílvia Coelho
O filme TOPOGRAFIA DE UM DESNUDO de Teresa Aguiar baseia-se em fatos reais ocorridos na década de 1960 no Rio de Janeiro: a chamada “operação mata-mendigos”, que culminou com a morte de vários moradores de rua, antes presos, torturados e depois jogados nos rios Guandu e da Guarda: um processo de limpeza social “aparentemente” em razão da visita da Rainha Elizabeth II da Inglaterra ao Brasil.
TOPOGRAFIA DE UM DESNUDO fala do sofrimento e da humilhação a que são submetidas pessoas em situação de rua, resultantes da política higienista presente desde sempre no Brasil e nos dias atuais de forma intensa em várias cidades brasileiras. Por outro lado, o filme revela o preconceito e o desprezo da sociedade. Apesar de tudo, a solidariedade, o ânimo por justiça e a luta por direitos, respeito e atenção a elas continuam presentes em vários grupos sociais.
Destaca-se a persistência da diretora Teresa Aguiar que tentou encenar o texto de Jorge Diaz desde a década de 1970, mas preso na censura por 13 anos só em 1985 foi produzido para o teatro. Mesmo nessa época era necessária uma autorização provisória da Polí cia Federal, renovada a cada 15 dias.
O filme foi selecionado para a Mostra Internacional de Cinema e será exibido nos dias:
— 28 de outubro às 20h20 no Shopping Frei Caneca.
— 29 de outubro às 13h30 no Shopping Frei Caneca.
— 31 de outubro às 13h30 no Espaço Unibanco DA Rua Augusta
É importante a presença e o voto nessas sessões para que o filme permaneça em cartaz propiciando assim a fundamental visibilidade de uma questão social tão atual. TOPOGRAFIA DE UM DESNUDO entra em cartaz no circuito da cidade no dia 13 de novembro no Belas Artes/HSBC.
F ICHA TÉCNICA
Obra Original: JORGE DIAZ
Diretor(s): TERESA AGUIAR
Roteiro: ARIANE PORTO
Diálogo: ARIANE PORTO
Fotografia: CARLOS EBERT, A.B.C.
Montagem: LANDA COSTA
Produção Executiva: ARIANE PORTO E FARID TAVARES
Música: MÁRIO MANGA
Costume design: REBECA BEOLCHI AND ELÔ CARDOSO
Som: GABRIELA CUNHA
Direção de Arte: MONICA PALAZZO
TAO Produções
Patrocínio: Paulínia Magia do Cinema; Hubert Balls Found; Corpus;
Quanta; Europa Filmes; Rotunda; Imago e Teatro Arte e Ofício
UMA OUTRA HISTÓRIA
Em 1972, Teresa Aguiar foi com um grupo de alunos da Escola de Arte Dramática (EAD) da USP apresentar “O Rato no Muro” de Hilda Hilst no Festival de Teatro de Manizales, na Colômbia. Nes se festival foi apresentada a obra “Topografia de um Desnudo” do chileno Jorge Diaz, que es creveu a peça baseado numa matéria que saiu nos jornais do Chile sobre a “operação mata-mendigos” do Rio de Janeiro. Além de Teresa, assistiu ao espe táculo seu aluno, Ney Latorraca, que mais de 40 anos depois, integra o elenco do filme. De volta ao Brasil, Renata Pallottini fez a tradução e Te resa tentou encená-lo.
Esse fato teve grande repercussão nacional e internacional já que, pela primeira vez, uma operação dessa natureza era deflagrada com a participação de membros dos poderes instituídos. Com o golpe de 64, os processos foram arquivados e a história “apagada”. Não há estudos a respeito, mas apenas boletins de ocorrência e jornais da época.
NOTAS SOBRE A PRODUÇÃO
A formação de atores e técnicos sempre esteve presente na vida de Teresa Aguiar que, a convite de Alfredo Mesquita, lecionou na EAD. Para a realização de TOPOGRAFIA DE UM DESNUDO, Teresa montou uma equipe de profissionais e, durante três anos, promoveu oficinas nas diversas áreas do audiovisual para jovens de Campinas e Paulínia. Ao todo, participaram das oficinas cerca de 1.200 alunos, dos quais aproximadamente 300 participaram diretamente da produção do filme.
O filme tem atores experientes e de renome nacional, como Lima Duarte, Ney Latorraca, Gracindo Jr., José de Abreu, Maria Alice Vergueiro, Kito Junqueira, Nilda Maria, Rafaella Puopolo. Os atores se interessaram pelo projeto e contribuíram para sua realização, participando de oficinas, dialogando com alunos e trocando experiências. Mais informações nohttp://topografiadeumdesnudo.
DEPOIMENTOS
“Topografia de um desnudo é um filme extremamente corajo so, trazendo à tona um episódio triste de nossa história e que a ditadura militar tratou de em purrar para debaixo de um pesado tapete: o as sassinato de mendigos no Rio, no final dos anos 50, feito como “limpeza” da cidade para a visi ta da Rainha Elisabeth”.
João Batista de Andrade, cineasta.
”Que a pobreza não seja compulsória, obriga tória e nem irreversível. O filme de Teresa fala aos nossos olhos, aos nossos ouvidos e, porven tura, aos nossos punhos”. Eduardo José Pereira Coelho, professor da Unicamp.
Segunda-feira, Outubro 26, 2009
Saudosa Maloca
de Carlos Augusto de Araujo Jorge.
Em baixo de um viaduto, no bairro imperial de São Cristovão, e em frente à imponente Quinta da Boa Vista, lá está um grupo de umas vinte pessoas, homens e mulheres, tidas e havidas como pessoas agressivas e inabordáveis.
No outro oposto do mesmo viaduto está instalado um abrigo, outrora albergue, cujo nome homenageia um dos “perdidos numa noite suja” o nosso Plínio Marcos, aí com pessoas dóceis, tranqüilas alguns deles com “transtornos mentais’ como alguns denominam.
O que me leva a essa comparação? O rebelde, inacessível, inabordável e o pacato, obediente às regras instituídas?
Em uma visita aos dois espaços para estudar a viabilidade de apresentarmos uma proposta de Humanização da parte do viaduto onde se instalou o primeiro grupo, por orientação do Secretário Municipal de Assistência Social, pude constatar que o que faz do outro o seu modo de ser, muita das vezes, é o que eu espero que ele seja. Isto é, nós construímos as imagens que desejamos e a elas emprestamos as ações, Imagem em ação talvez Imaginação.
No “abrigo” estavam pessoas, umas sentadas, outras em fila indiana, à espera do almoço. Outros visitavam páginas de velhas revistas, uns com camisas outros sem.
Todos, adaptados àquele espaço e às suas normas.
No outro espaço, alguns passeavam de um lado para outro, outros deitados dormiam ou procuravam fazê-lo, pedras serviam de travesseiros. Pouca ou quase nenhuma higiene.
Lá na ponta do viaduto uma pequena fogueira, onde segundo alguns, servia para derreter cobre e que eles fizeram questão de ressalvar: “não são fios roubados”.
Eram homens e mulheres, essas em número bem menor, que se apropriavam desse espaço e que a turma do outro lado e os profissionais que trabalham com essa população chama de “Maloca”.
Os dos abrigos acatam as normas e quando por qualquer motivo as transgridem perdem o seu lugar de ficar.
Na “maloca”, também tem regras. Lá não entra bandido, nem ladrão, nos afirmam as lideranças que se dispuseram a conversar conosco. De certo, dão “sua trepadinha” e fumam seu ‘baseado’, mas não há bagunça.
Os dois espaços têm normas e permitem convivência. Por que o “abrigo” é visto como tranquilo e a maloca perigosa? Se ali estivemos e fomos igualmente bem recebidos? Demoramos mais na maloca onde as pessoas, muitas delas foram até despertadas na hora, conversamos com urbanidade e maturidade. Fomos francos e recebemos atenção. Amistosos e fomos considerados. Curiosos e respostados.
Continuo a me perguntar: onde está a agressividade da “turma da maloca”? Onde está a hostilidade? Penso que dentre nós!
O nosso Secretário resolveu ressignificar aquele espaço. Humanizá-lo e a turma gostou. Entenderam o que é administrar no coletivo, pois isso sempre o fizeram!
Dentre em breve, teremos a “Saudosa Maloca”, uma justa homenagem a um grupo de sambistas que à margem do berço do samba, São Paulo, fizeram coisas belíssimas.
Rio de Janeiro 17 de outubro de 2009.
Quinta-feira, Outubro 15, 2009
Guarda civil que agrediu morador de rua em Ribeirão Pires é demitido
Conforme ato oficial publicado hoje, o prefeito Clóvis Volpi julgou procedente o relatório final do processo administrativo instaurado contra Sandro. O documento, apresentado por uma comissão disciplinar criada no início deste ano para apurar o caso, concluiu que houve "conduta irregular cometida pelo servidor, ofensa física e moral a um cidadão e atitude desordeira em praça pública".
A decisão publicada pela prefeitura não cita o nome do irmão de Sandro, o também guarda civil Emerson Torres Amante, que filmou a agressão.
Violência - O ataque ao morador de rua conhecido como Wallace, que é deficiente mental, ocorreu em outubro de 2008. Ele parou na base da GCM para pedir um copo de água e Sandro, em tom de deboche, perguntou se o rapaz queria "gás de pimenta, borrachada ou tiro".
Depois, o guarda questionou se Wallace preferia gás natural ou carbônico. "Eu quero gás natural", respondeu. Em seguida, às gargalhadas, Sandro acionou um extintor de incêndio contra a vítima.
O episódio, gravado por Emerson, caiu no conhecimento da população de Ribeirão em janeiro deste ano, quando uma pessoa resolveu denunciar o caso à polícia. À época, os irmãos disseram ser amigos do morador de rua e classificaram a ação como uma "brincadeira infeliz".
Fonte: Diário do Grande ABC
Quarta-feira, Setembro 16, 2009
Audiência pública no Rio de Janeiro
Ontem, recolhidos. Hoje, nas ruas novamente.
E amanhã?
Em lugar de práticas ultrapassadas e comprovadamente ineficazes, uma nova proposta de atendimento à população em situação de rua. A proposta será debatida em audiência pública na Câmara Municipal do Rio de Janeiro no dia 25 de setembro, das 10h às 13h.
Organizada pelo Fórum Permanente sobre População Adulta em Situação de Rua, a programação discutirá as origens, o perfil, a história e a situação atual do atendimento a essa população no Rio. O objetivo é tratar de sua inclusão como um processo, propor uma autoavaliação dos serviços e formar um grupo inter-setorial de trabalho, com a ampla participação da sociedade, para a elaboração de um projeto de lei municipal para esse segmento.
O Fórum Permanente é formado por pessoas e entidades de mais de 18 municípios fluminenses, e por quem passou ou passa pela experiência de viver nas ruas. Há nove anos promove estudos, debates e outros eventos. Em 2008 apresentou aos governos municipal e estadual as bases para uma política pública de inclusão social da população adulta em situação de rua no Estado do Rio de Janeiro.
O quê: Audiência Pública: Uma Nova Proposta de Atendimento à População em Situação de Rua do Rio
Onde: Câmara Municipal do Rio de Janeiro
Praça Floriano, s/no – Cinelândia
Quando: Sexta, 25 de setembro de 2009, às 10:00 horas
Informações: Luciano Rocco, luciano.rocco@gmail.com.
Organização:
Fórum Permanente sobre População Adulta em Situação de Rua do Estado do Rio de Janeiro
Realização:
Comissão de Educação e Cultura da Câmara Municipal do Rio de Janeiro
Sábado, Julho 18, 2009
Brasil sediará a Copa do Mundo de Futebol de Rua em 2010
Mel Young, Presidente da Homeless World Cup, afirmou: “O Rio é o local perfeito para sediar a Homeless World Cup 2010. Brasil é o país do futebol tendo muitos de seus grandes astros partido das ruas do país para os maiores centros do mundo. Com a infra-estrutura criada para sediar alguns dos maiores eventos esportivos do mundo e com o comprometimento dos poderes público e privado em utilizar o futebol como verdadeiro instrumento para transformação social, estamos extremamente impressionados com o potencial impacto que o evento gerará para o Rio, o Brasil e o resto do mundo”.
Segundo Julio Filgueira, Secretário Nacional do Ministério dos Esportes, “será uma honra receber países de todo o mundo para este grande evento no Brasil. Certamente a Homeless World Cup 2010 será uma grande oportunidade para sensibilizar a sociedade sobre aspectos importantes relacionados às pessoas que estão submetidas às maiores condições de vulnerabilidade e exclusão social, além de permitir demonstrar como o Esporte pode ser uma ferramenta eficaz no processo de formação e inclusão social”.
O Brasil e o Rio de Janeiro têm grande experiência na organização de grandes eventos mundiais como os recentes Jogos Pan-americanos, em 2007, e a Copa do Mundo de Futsal, em 2008. A cidade é ainda candidata a sediar os Jogos Olímpicos em 2016 e será uma das sedes da Copa do Mundo de 2014.
O Comitê Organizador da Homeless World Cup 2010, liderado pela OCAS, através de seu programa “Futebol Social”, e que conta com o apoio e participação de parceiros como Nike Brasil, Sport Club Corinthians Paulista e Instituto Illuminatus, ofereceu sólidas garantias financeiras, estruturais e institucionais para o sucesso do evento em 2010. “O Brasil receberá os visitantes de braços abertos e estamos seguros que a Homeless World Cup 2010 deixará eternos legados em nossa pátria”, afirmou Guilherme Araujo, diretor da OCAS/Futebol Social e responsável pela candidatura brasileira.
Fundada pelo empreendedor social Mel Young, a Homeless World Cup tem o apoio da UEFA, Nike, Vodafone Foundation, Embaixador Global Eric Cantona e atletas profissionais como Didier Drogba e Rio Ferdinand. O evento promoveu e apoiou a criação de programas sócio-esportivos em mais de 70 nações, envolvendo pelo menos 100.000 jogadores desde que foi fundado. Mais de 70% dos participantes tiveram suas vidas transformadas: saída das drogas e álcool, obtenção de empregos, moradia, educação e atuação como técnicos de futebol, jogadores e empreendedores sociais.
A 7ª Homeless World Cup ocorrerá entre 6 e 13 de Setembro em Milão, na Itália, e contará com a participação de 48 países e 500 jogadores, demonstrando como uma bola pode transformar o mundo.
A Homeless World Cup também anunciou Paris, França, e Poznan, Polônia, como sedes dos eventos em 2011 e 2013, respectivamente.
Quarta-feira, Maio 06, 2009
Time dos sem-teto torce por uma vida nova com o futebol

Julie Bosman
Os jogadores cabeludos, uniformizados precariamente em camisas vermelho tijolo e chuteiras usadas, provêm do Haiti, Togo, México, Honduras e do Harlem. Já o time de camisas pretas ostenta rostos lisos, cabelos bem aparados, uniformes novos e diplomas de universidades como a Carnegie Mellon, Syracuse e Pace, além de escolas na China e na Austrália. A maioria dos jogadores de preto são colegas de trabalho no Royal Bank of Canada, e parte do elo que os une se deve à nuvem negra que pende sobre o mercado financeiro. O time vermelho, igualmente, tem circunstâncias financeiras como traço de união: todos eles vivem juntos no mesmo endereço temporário, um abrigo para moradores de rua em Wards Island. Certa noite recente, as duas equipes se defrontaram no Chelsea Piers, talvez o complexo de futebol mais procurado pelos jovens profissionais de Manhattan, e agora também a sede das partidas do mais novo time da Street Soccer USA, uma rede que inclui times formados por moradores de rua em 16 cidades dos Estados Unidos, criada em 2005 em Charlotte, na Carolina do Norte, e controlada pela Help USA, uma rede nacional de serviços aos moradores de rua. A idéia por trás dos times de futebol de moradores de rua é a seguinte: tome um grupo de pessoas pobres, desconectadas de qualquer ritmo rotineiro de vida e desprovidas de muitas expectativas e futuro ou de formas de exercício físico. Acrescente futebol. Em Ann Arbor, Michigan; Austin, Texas; Minneapolis; St. Louis; e Washington, o programa leva crédito por ajudar participantes a encontrar alternativas à moradia de rua. Existe até mesmo uma Copa do Mundo dos moradores de rua, cuja edição deste ano, a sétima, acontece em setembro em Milão, na Itália. "Quando estou em campo, sinto que não posso fazer nada de errado", disse Dexter Burnett, 47, que jogava futebol em sua Jamaica natal, onde a velocidade que ostentava em campo lhe valeu o apelido de "Pepper" (pimenta). Ele foi demitido no final do ano passado de um emprego como assistente em um consultório médico. "Jogar me permite deixar de lado a preocupação com a minha situação, por um instante, e simplesmente relaxar e aproveitar o momento". A liga de futebol de moradores de rua é idéia de Lawrence Cann, 31, que já esteve entre os melhores jogadores do futebol universitário norte-americano, pelo Davidson College, e se transferiu no final de 2008 de Charlotte para Nova York, que abriga uma das maiores populações de rua dos Estados Unidos, estimada em 35 mil pessoas, mas até agora não tinha time estabelecido de futebol de pessoas de rua. Com a ajuda de alguns voluntários, Cann limpou um empoeirado ginásio que vinha sendo usado como armazém, no abrigo de Wards Island, um pedaço de terra no meio do East River. Ele recrutou alguns poucos jogadores, relutantes, prometendo que não seriam punidos por desrespeitar o horário de retorno do abrigo, 22h. Em um dos primeiros treinos, certa noite chuvosa de março, era evidente que pelo menos duas das pessoas reunidas em um círculo haviam bebido. A maioria dos presentes não falava muito inglês. E nem mesmo sabiam os nomes uns dos outros. "Ei, cara", chamou um jogador antes de fazer um passe desajeitado que passou muito longe do alvo. Percebendo a situação, Cann importou uma prática conhecida nos treinos iniciais de futebol de quase qualquer equipe em início de temporada: antes de fazer um passe, o jogador tem de chamar pelo nome o recebedor. Ele instruía a equipe em inglês e espanhol. Disse que quem aparecesse bêbado ou chapado para os treinos não poderia participar naquela noite, mas estava autorizado a voltar sóbrio na semana seguinte. E entre corridas, passes e chutes, os jogadores tinham de conversar com o técnico sobre os seus objetivos fora de campo, sua busca de empregos e seu estado de espírito. Das 30 pessoas que apareceram para os treinos, apenas seis deixaram, de voltar para novas sessões. "É preciso de alguma coisa que ajude a manter a mente ocupada, por aqui¿, disse Woods Matthews, 45, um participante frequente, cujas longas tranças voam enquanto ele corre em campo. "É por isso que as pessoas ficam tão irritadas no abrigo. Não temos como nos exercitar, estamos presos lá, e surgem brigas". Enquanto os jogadores procuravam superar suas dificuldades pessoais, Cann começava a procurar oponentes. O Chelsea Piers, com suas modernas instalações, está entre os mais caros dos complexos de futebol de Nova York - um pacote de 10 partidas custa US$ 2,45 mil-, e normalmente tem uma lista de espera de mais de 25 times. Mas os problemas da economia levaram diversas equipes patrocinadas por empresas a deixarem de lado seus horários. Cann conseguiu obter doações para cobrir o custo de inscrição, a Nike doou equipamentos e o Chelsea Piers forneceu as camisas, como faz para todas as equipes que jogam lá. Chegar ao local é uma viagem de 70 minutos, para a equipe do abrigo: tomam o ônibus M35 até o Harlem, um metrô para o centro, e depois caminham 800 metros pela West Side Highway. Os jogadores de rua perderam sua primeira partida por 14 a quatro, jogando sem quaisquer reservas. Na semana seguinte, os adversários eram funcionários da Bloomberg, a companhia de informações financeiras, cujos jogadores pareciam curiosos, de forma polida. "Acho que, por serem moradores de rua, eles talvez joguem de modo agressivo", previu Louis Brun, 22. O Street Soccer NY perdeu de novo, por 11 a cinco. Enquanto as equipes se dirigiam ao vestiário, Barnett puxou papo com um adversário, perguntando se a Bloomberg estava contratando. "Se o meu pessoal puder ir a campo e se sentir confortável conversando com pessoas novas, sem se frustrar, isso vai ajudá-los a se integrar", disse Cann. "Um dia terminarão por conseguir empregos e por manter seus apartamentos". Ele já estava percebendo progressos. Um jogador deixou o abrigo e voltou a morar com a família. Outro, Jarvis Strose, que se recusava a participar de reuniões com assistentes sociais e sempre violava o horário de retorno, em seus dois anos como morador de rua, chegou no horário em todos os treinos semanais. Um assistente social disse a Cann que um terceiro homem, que desenvolveu um distúrbio nervoso depois de ser espancado na prisão, estava começando a se recuperar do trauma devido ao exercício. Na terça-feira, o Street Soccer NY enfrentou o Gunners, um time composto principalmente por funcionários do Royal Bank of Canada. Chris Lodgson, 25, que joga na zaga central da equipe dos moradores de rua, veio direto de seu novo emprego no café da Bloomingdale. Estava planejando se mudar do abrigo para um apartamento em Washington Heights, mas continuará a jogar pelo Street Soccer, que ele diz ter sido fundamental para que recuperasse o prumo. "Não quero dizer que tudo voltou ao normal, mas voltei a me sentir como eu mesmo", afirma. "Duas semanas atrás, em campo, foi a primeira vez que esqueci meus problemas. Esqueci minha situação, e o que eu estava passando". Na terça, o time de vermelho saiu em vantagem, com passes fluidos e os jogadores se chamando pelos nomes para preparar jogadas. O pessoal que estava no campo vizinho se aproximou da cerca para assistir. "É o time dos moradores de rua?", perguntou um espectador, erguendo as sobrancelhas. "Uau, eles jogam bem". Strose marcou seu quarto gol na partida, e saiu do campo ofegante. Matthews, que o substituiu, logo errou um chute a gol, mas os colegas de time o encorajaram. "Quando começamos, eles não sabiam jogar", diz Cann. "Não sabiam passar. Não confiavam uns nos outros". Placar final: moradores de rua 10, banqueiros quatro. Cann, cercado pelos jogadores alegres, parecia aliviado. "Realmente precisávamos de uma vitória", ele disse. Ainda aplaudindo, ele disse aos jogadores: "Cumprimentem os adversários!". Tradução de Paulo Migliacci | |
| The New York Times Fonte: Terra Esportes | |

